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CIDADE DE AVEIRO
Deixei o meu olhar pela cidade
Num barco moliceiro, que sulcando,
Sua peculiar identidade
Me foi nos seus canais apresentando
Canal Central, mais largo e bem mais cheio
De barcos com pinturas multicores
A colorir também nosso passeio
Repleto bem de sonhos e de flores
O homem do comando faz um toque:
Na proa uma ajudante se empoleira
Pra ver se vem um barco do São Roque (*)
Ou se podemos ir logo à primeira
Um prédio nos sorri em pequenez
Um outro mostra âncoras-janelas;
Há armazéns de sal que o tempo fez
Dormir em suas formas tão singelas...
E a minimizar do mar o dano,
Prédios com azulejos - protecção.
Que é forte a maresia... e o oceano
Invade-a e faz mossa ao coração
Porém, com seus canais em lindos versos
Faz-lhe também poesia. (O canal Côjo
Beijando-a no Palácio dos Congressos
Adentra-a... namorando-a, com arrojo!)
Três prédios ovalados formam barcos,
Um Forum mais abaixo nos convida...
Há flores no canal sobre um dos arcos
Ali onde a cidade tem mais vida
Floresce-a inda mais a avenida,
No meio, como sendo a sua espinha;
Ao cimo há a Estação, tão bem vestida
Que mostra com orgulho a velha linha
Jardins aqui, além, fazem encanto
A todo o que a visita, na certeza
Que vai amá-la sempre! Sempre e tanto
Pois sabe que ela é sua Veneza!
Deixei o meu olhar pela cidade
Na esp'rança de voltar talvez em breve...
O coração, a ir, me persuade.
A alma sempre lá me fica leve.
(*) canal de São Roque, ao qual se acede
por uma pequena entrada
Joaquim Sustelo
DESDE O NOSSO ADEUS
Vejo-te quando te imagino
nos momentos que tenho a sós comigo,
quando para dormir brigo
a meditar nas voltas do destino
Vejo-te calma, adormecida,
talvez em sonhos como os meus...
Que um dia nós dissemos um adeus
e desde aí
ficou para sempre longe
a nossa vida
Vejo-te na noite que desce apressada
mas calma e silente
em busca de encontro com a madrugada
a nós indiferente...
E àquela estrela mais linda
vai um beijo meu voando...
Quem dera que a estrela ainda
descesse esta noite a dar-to
enquanto tu te encontrasses
adormecida sonhando
no silêncio do teu quarto...
Joaquim Sustelo
ÀS VEZES
Às vezes se uma nuvem pardacenta,
Ensombra algum nascer dum meu sorriso,
Reage a minha alma e logo inventa
Trazê-lo lá de onde for preciso
E a nuvem permanece... e logo tenta
Mandar-me chuva grossa, até granizo!
Deixando a minha estrada lamacenta
Tal como em meu redor, o que diviso
Penso que o sol virá sempre depois.
Que a vida, ela afinal, tem chuvas, sóis,
Outonos, Verões, Invernos, Primaveras...
E se hoje ela nos traz desilusões
Também dá alegria aos corações!
- Basta ficar no tempo das esperas...
Joaquim Sustelo
CARTA DE AMOR... A UM GRANDE AMOR
(Tentativa de reprodução duma carta que escrevi aos 15 anos de idade, para uma namorada que faleceu quase em seguida)
Meu grande amor,
Dizer-te nestas linhas
Que te amo
Tu já sabes…
A todas as horas minhas
Por ti chamo
E vivo neste enlevo…
Até me atrevo
A dizer-te :
No meu coração cabes
Mas fico sem espaço
Para mais ninguém.
Porém,
Queria ir mais além…
Falar-te da magia
E do encanto
Que em mim provocas
E dos beijos que me dás
Ternos, prolongados,
Selando as nossas bocas
Em momentos que me dão paz
E onde também
Quase me sufocas.
Contudo,
Um sufocar que dá alento…
E optamos sempre
Pelo beijo lento,
O que mais gosto,
Que aconteça entre nós…
Depois ficamos a olhar-nos
Mudos, sem ter voz,
Não sabendo sequer o que dizer…
…e com receio de avançar
Para outros actos
Proibidos na nossa idade
Temos apenas quinze anitos…
Na verdade
Somos ainda tão novitos…
Mas dentro de nós sentimos
Quanto o amor nos traz
- A força de quem já é capaz
De saber o que pretende
Ah como o coração entende
E tudo nos seduz…
És tu a intensa luz
Que me alumia
E que me faz sentir feliz
Dia após dia
Responde a estas linhas
Com outras parecidas
Ou iguais,
Simples, mas sentidas,
E eu te escreverei sempre mais
E mais
Até que um dia possamos
Juntar as nossas vidas.
…………………………….................- ................
…………………………….................- ................
(Sabes… já estamos noutro tempo,
Ano dois mil e onze…
Um outro século da História
Que para ti foi escura, mais que bronze
Tentei reconstruir
Uma das últimas cartas
Que ainda me dança na memória
E que era mais ou menos
Como aqui escrevi.
Depois, fiquei sem ti.
Tantos anos ficaram para trás
Desde que te foste…
Sei que descansas em paz
Desde esse triste
Dia em que partiste
E com um beijo me despedi de ti
(o beijo que já não sentiste…)
Hoje,
Tantos anos passados,
Quando a saudade vai mais longe
Seja ou não Dia dos Namorados,
O pensamento ainda para ti me foge
E a dor ainda se extrema.
Então, recolho-me a um canto
Meditando…
E é assim que, de vez em quando
Ainda te escrevo algum poema.)
Joaquim Sustelo
COMBOIOS
(enquanto espero alguém)
Gosto do movimento dos comboios
e das pessoas
numa estação grande
Ali o olhar expando
em todas as direcções
e imagino o que vai passando
por tantas almas
e tantos corações
Aqui um par se beija
contorcendo o corpo de desejo...
Bocas unidas
abertas, frementes,
olhos reluzentes
no calor do beijo
Ali outro par conversa
sem ter a mesma sede
Além um outro à pressa
Se despede
E chega um comboio
pela linha três...
Todos vão à pressa
mas na sua vez
Alguém lê o jornal
num recanto mais pacato
E tantos, sentados,
nos bancos em fila,
lêem uma revista
ou coisa nenhuma...
E um comboio se esfuma
pela linha quatro
Há choros e risos
na ida ou chegada
Gente que se abraça,
gente emocionada
Mais uma chegada...
Mais uma partida...
Fico assim absorto
tudo contemplando...
E vou viajando
neste meu conforto
do comboio da vida.
Joaquim Sustelo
LOGO À MEIA NOITE
Logo à meia noite correrá o pano
Findará um Acto, cessará de vez!
Ficam os actores, mas o velho ano
Morre pela idade... o dois mil e dez
Dois mil e dez anos! Uma infinidade
Desde o nascimento na velha Belém
Em pobre choupana, na precariedade,
De um Homem de Paz, que pregava o Bem
Fosse Ele quem fosse na filiação,
Nascido do povo ou de origem divina,
Estaremos unidos nesta opinião
De que vale a pena seguir-lhe a doutrina
Falou de equidade, de amor, de carinho,
De paz, de concórdia, do homem-irmão...
Indicou a todos qual era o caminho
À luz da palavra, bondade e perdão
Seus ensinamentos foram caso sério
Para o homem vil, tornando-o iracundo;
Que a partir de Roma formara um Império
A ferro e a fogo mandando no mundo!
E logo o mataram, com tantos maus tratos
(Que ousou pôr em causa ganâncias, poder...)
Mas ainda hoje governam "Pilatos"
Com os mesmos actos, que lhes dão prazer
Porquê? - Interrogo. Não há quem me diga?
- Se os Impérios caem à luz da razão,
Como os anos morrem - que o tempo os obriga -
Ou morremos todos, quer ricos quer não!
A vida é de instantes, é breve passagem
No tempo que voa e vai tão veloz...
Podia ser bela, cómoda a viagem
Bastando só querermos... depende de nós!
Senhores da guerra, do Quero e do Posso
Olhos que só vêem ganância e cifrões,
O mundo é de todos e nunca só vosso!
Discutam ideias, aclarem razões!
Logo à meia noite virá mais um ano...
- De paz, de amizade, de amor, se componha!
Seja festejado, no quotidiano!
Dos erros passados tenhamos vergonha!
Joaquim Sustelo
CONTO DE NATAL
Lá no Céu, no seu cantinho
um anjinho pequenino
passava dias e dias
olhando para as estrelas.
Que importava estar a vê-las
até horas tão tardias,
se tinha tempo… e as estrelas
luzes que cintilam, belas
fazem sonhos e magias?…
Às vezes, anjos mais velhos,
vinham dar-lhe os seus conselhos:
“Vai deitar-te! Aí ao frio
não podes permanecer!
Não fica bem a um menino
das horas sempre esquecer!...”
Mas ele era um sonhador…
Pensava: “lá bem ao fundo,
não haverá qualquer mundo,
decerto algo diferente
mas onde haja também gente?”
Que bom seria ir espreitar,
com suas asas voar,
tão depressa, tão ligeiro,
para depois regressar
com sonhos desse roteiro!
Às vezes, Nosso Senhor,
por alturas do Natal,
passava por ele e ia
bem depressa, tal e qual
como ele idealizava.
(Descia… e não demorava.)
Aonde iria afinal?
(Indagava-se o anjinho)
E, à noite, em sua cama
pensava nisso sozinho.
Era a ânsia de saber
o que ninguém lhe dizia…
Ir também? Podia ser?
De certeza, não podia.
Seus pais não consentiriam
uma saída do Céu!
E uma noite, e outra noite,
sempre triste, adormeceu.
Mas a Virgem tinha visto
e da treva fez-se luz:
tendo pena do anjinho,
triste, pensando, sozinho,
tinha contado a Jesus.
E uma noite, da janela,
disse-lhe Ela meigamente:
“Voa até à maior estrela,
verás que ficas contente”.
Dormia tudo em sossego.
A noite metia medo.
Mas ele lá foi, alegre,
embora fosse tão cedo...
Chegando à estrela indicada
foi encontrar Jesus Cristo;
sua carita, pasmada,
ao observar tudo isto:
De sacos, uma montanha!
Com brinquedos, com comida,
que coisa tão linda e estranha
nunca vira em sua vida!
Eram milhares e milhares,
com coisas tão variadas,
que ele passou seus olhares
com as palavras paradas!
Disse-lhe então Jesus Cristo
pleno de amor, tão profundo:
“Vamos levar tudo isto
a crianças de outro mundo.
Vamos encher corações
de alegria e de ternura;
há outras ocasiões
mas é uma boa altura…
No Natal eles aguardam
sempre pela minha visita.
Esta noite irás comigo
muita gente lá existe;
deixarás de ficar triste
é uma viagem bonita.
Quanto aos teus pais, já lhes disse:
ontem falei no assunto
sem tu teres dado por isso.
Partamos com alegria!
Esse monte aí ao lado,
esse que está aí junto,
agarra nele… e eu levo
todos os outros comigo.
Comecemos a voar,
anda daí meu amigo!”
Não podia acreditar
o nosso anjinho, coitado!
Ver mais além sempre quis!
Sentir-se assim tão feliz,
estaria mesmo acordado?
Mas começou a viagem…
Jesus cantava baixinho;
O anjo, de tão contente,
ia ouvindo, caladinho…
Lá foram entre as estrelas,
planetas, sempre, sem fim,
e viram coisas tão belas
que o anjo pensou assim:
“Haverá alguém no Céu
inda mais feliz do que eu?
que vou aqui com Jesus,
em fantástica descida,
vou dar brinquedos, comida,
vou a casas fazer luz
a gentes necessitadas?…
De certeza que não há
ninguém tão feliz assim!
Que bom é ir até lá!
Que alegria tenho em mim!”
Nisto pensando, notou
um planeta enorme à frente…
com árvores, rios e mares,
casas onde havia gente…
Jesus disse-lhe: “é a Terra,
é este o nosso destino.
Vai dar tudo o que aí levas!
Não deixes nenhum menino
sem brinquedos ou comida!
É duro viver na treva!
Dá-lhes Luz, Amor e Vida!
Por outros lares diferentes
fazer o mesmo irei eu.
Depois então voltaremos
de madrugada pró Céu.”
E cada um pra seu lado,
foi cumprir suas missões…
O anjinho dava, contente,
do que tinha, àquela gente,
enchendo-lhe os corações
de alegria e de ternura.
Repartiu até ao fim.
Esgotou tudo o que levava.
Mas tanta gente feliz
numa noite ele deixava!
Já era quase manhã
e ia pró seu destino,
quando notou a chorar
e, de frio, a tiritar,
muito infeliz, um menino.
O anjinho olhou para os sacos
e estava tudo vazio…
Mas como deixá-lo ali
a tremer, cheio de frio?
Teve uma ideia feliz:
foi buscar uma estrelinha,
deu-a então ao menino
para aquecer-lhe a casinha.
E ele ficou tão contente!...
Mas disse, preocupado:
“Olha que no Céu talvez
alguém tivesse notado…
Leva-a daqui mas põe perto,
de modo que ela me aqueça;
pois se a pões onde me abrigo
ainda vão ralhar contigo,
não é coisa que se ofereça…
Basta que fique baixinha
para que a vejam… ali...
Aquece toda a casinha
e vou lembrar-me de ti.”
O anjinho concordou
depois… desapareceu…
Nunca mais ninguém o viu
desde que voltou pró Céu.
Mas a tal estrela brilhante
que veio dessa ideia sã,
ainda hoje, cintilante,
lá está, das outras distante...
-É a ESTRELA DA MANHÃ.
Joaquim Sustelo
20.l2.1987
(Ao Rui Pedro e Sónia Raquel, meus filhos, que, à data em que escrevi este poema em conto, tinham respectivamente, 12 e 9 anos. Uma dedicação especial ao Rui, que foi com base numa redacção que fez sobre o tema, que eu depois adaptei para verso. Teve uma classificação muito boa e um elogio da professora e com orgulho veio mostrar-me. Com não menos orgulho, fiz então o poema).
NOITE ESPECIAL
Ecoam no silêncio das manhãs
passos incertos
tirando o brilho à luz das madrugadas
- São seres por caminhos pouco abertos
ou largos, mas de nadas
Tremulam pelos bancos ao relento
num roto cobertor
que deixa passar esp'ranças ocas... vãs...
Apenas as canções na voz do vento
da chuva e do frio, fero, cinzento
embalam as manhãs
nuas de amor
Esta noite, têm momentos de sossego
- um tecto e ceia
Que a Noite de Natal traz mais apego
e a lembrança dá-se
como se a quem se lembra se injectasse
amor na veia
Mas amanhã vai-se o Natal.
Depressa...
Cessa a quadra de encanto e de magia
E ecoarão os passos incertos pelas ruas
onde tudo recomeça
Como se proviessem de almas nuas...
Noite após noite...
Dia após dia...
Joaquim Sustelo
24.12.2010
SONETILHO DE NATAL
Nesta quadra que esvoaça
Em que Amor ganha um alento,
Em que o perfume do tempo
As almas mais entrelaça,
Sinto teus passos no vento
E do teu sorriso, a graça...
Há um gesto teu que abraça
Num constante movimento
Vai-se o Natal, ele é breve
Os corações ganham neve
E no teu já me concentro
Nele existe sempre amor
E é por esse fulgor
Que tu me ficas cá dentro.
Joaquim Sustelo
O RELÓGIO
Foi num Natal distante. Era criança
e pus o meu sapato à chaminé...
- Que a mãe tinha-me dado uma esperança
de vir o Pai Natal pé ante pé,
deixar algum brinquedo ou algo mais
que achava que eu de facto merecia;
E tal como acontece em casos tais,
deitei-me, num silêncio de alegria
A casa era no campo, num sossego
que nada nem ninguém entrecortava;
Mas lembro, manhãzinha, logo cedo
ao pé da chaminé, já me encontrava
Descalço, a evitar algum barulho,
ansioso por saber eu comecei
a desatar o pequenino embrulho
que dentro do sapato então achei
Brilhava já o lume em dois madeiros
que a mãe punha bem cedo, pla manhã,
onde fervia o leite e os primeiros
comeres, para se ir ao nosso afã
Brilharam do relógio os dois ponteiros,
o vidro reluzia, coisa linda!
Meus olhos faiscaram tão ligeiros
e deles foi maior o brilho ainda!
Relógio tão bonito... e era meu!
E mais feliz do que eu? - Creio que ninguém!
Trouxesse o Pai Natal, de lá do Céu,
viesse do meu pai, da minha mãe,
era o início do marcar das horas
de tudo o que faria em minha vida:
as horas de estudar, de ir sem demoras,
prá escola, para o campo, para a lida...
Pautou-se assim a vida por horários
que ali (talvez sem querer) foi o mostrar-me;
guardei, ao registar, momentos vários
larguei as horas só... ao reformar-me
A alma com saudade me revive
a hora que faz tempo aconteceu;
E tenho outra alegria: ainda vive
quem tão bonita oferta então me deu. (*)
(*) os meus pais estão à beira dos 95 e 91 anos
Joaquim Sustelo
. ...
. ÀS VEZES
. CARTA DE AMOR... A UM GRA...
. COMBOIOS